REESTRUTURANDO A ECONOMIA ENERGÉTICA

 

Lester Brown

O ano 2002 foi o segundo ano mais quente da história. Os três anos mais quentes, desde que se iniciaram os registros em 1867, ocorreram nos últimos cinco anos.A chave para restaurar a estabilidade climática é sair de uma economia energética baseada no combustível fóssil para outra, baseada em fontes renováveis de energia e hidrogênio. O avanço das tecnologias no desenho de turbinas eólicas, que reduziram dramaticamente o custo de eletricidade eólica a ponto de poder ser utilizada para produzir hidrogênio da água, juntamente com a evolução de motores a células de combustível, abriu caminho para uma reestruturação dramática da economia energética mundial. A boa notícia é que essa mudança está em andamento. A má notícia é que não está ocorrendo com a velocidade necessária para evitar um acúmulo devastador para o clima, dos níveis atmosféricos de CO2. A queima de cada um dos três combustíveis fósseis está hoje aumentando lentamente ou declinando. De 1995 a 2001, o consumo de petróleo, a principal fonte mundial de energia, aumentou apenas um pouco mais de 1 porcento ao ano. Gás natural, o combustível fóssil mais limpo e menos perturbador do clima entre os três, cresceu menos de 3 porcento ao ano.A queima de carvão, o combustível fóssil mais sujo e mais intensivo em carbono, atingiu seu pico em 1996, tendo caído 6 porcento desde então. Este pico histórico, que assinala o primeiro declínio no uso de um combustível fóssil, poderá ser seguido por um pico semelhante no consumo de petróleo dentro dos próximos 5-15 anos.Por outro lado, os recursos renováveis, partindo de uma base pequena, estão crescendo a um ritmo extraordinário. Mundialmente, a geração eólica aumentou 32 porcento ao ano, entre 1995 e 2001. (Vide Tabela) Só em 2001, registrou um aumento significativo de 36 porcento. E nos Estados Unidos, a capacidade de geração de energia eólica deu um salto fenomenal de 66 porcento em 2001.Tendências do Consumo de Energia, por Fonte, 1995-2001Fonte/Taxa de Crescimento Anual (percentual)Eólica/ +32,0Solar fotovoltáica/+21,0Geotérmica*/+4,0Hidrelétrica/+0,7Petróleo/+1,4Gás Natural/+2,6Nuclear/+0,3Carvão/-0,3*Dados disponíveis até 1999.As vendas de células solares, crescendo a uma taxa de 21 porcento ao ano entre 1995 e 2001, deverão aumentar em ritmo ainda mais acelerado nos anos futuros. Outrora competitiva apenas para uso em satélites e calculadoras de bolso, as células solares estão hoje se tornando competitivas para iluminação residencial em povoados do Terceiro Mundo, ainda não estão conectados à rede. Se em muitos países, levar eletricidade a povoados significa construir tanto uma usina centralizada quanto uma rede de transmissão para o suprimento de energia, hoje é mais barato simplesmente instalar células solares. Em vilarejos andinos, por exemplo, o custo mensal de instalação (com um prazo de pagamento de 30 meses) de uma variedade de células solares para iluminação, é comparável ao custo de velas. Uma relação semelhante de preço existe para as vilas mais remotas da Índia que dependem de lâmpadas a querosene para sua iluminação.Outra fonte renovável, e com um potencial em grande parte despercebido, é a energia geotérmica, que está crescendo 4 porcento ao ano. Este recurso é vasto e provavelmente se destacará nas economias energéticas da borda do Pacífico, particularmente onde uma atividade vulcânica generalizada indica que esta energia está próxima à superfície. As costas ocidentais da América do Sul, América Central e América do Norte dispõem de energia geotérmica em abundância. Talvez a região mais rica seja o Pacífico Ocidental, incluindo Indonésia, Filipinas Japão e litoral ao leste e sul da China.. Outra região rica é a Grande Fossa Oriental (Rift Valley), que se estende através da África Oriental até o Oriente Médio. Na realidade, todo o leste do Mediterrâneo é bem dotado de recursos geotérmicos. Alguns países possuem energia geotérmica suficiente para atender todas as suas necessidades energéticas.A energia hidráulica, que supre mais de um quinto da eletricidade mundial, expandiu 2 porcento ao ano, desde 1990. Contrariamente a outras fontes de energia renovável, o crescimento da energia hidráulica está perdendo ímpeto à medida que escasseiam locais adequados e aumenta a oposição pública a inundações de grandes áreas de terra, à deslocação associada de grande número de pessoas e à perturbação de ecossistemas.Uma das dificuldades da reestruturação da economia energética é que sua viabilização depende de pequenas e inexperientes indústrias desafiando um grande setor, bem estruturado e altamente subsidiado. Uma forma de acelerar a reestruturação necessária para a estabilização do clima é adotar uma tarifação de custo pleno, exigindo que seus usuários paguem o custo total do seu uso.Fortuitamente, o combustível fóssil de crescimento mais acelerado é o gás natural, que é o combustível óbvio de transição de uma economia baseada no carbono para outra baseada no hidrogênio. A infra-estrutura do gás natural, incluindo redes de distribuição e instalações de armazenagem, poderá facilmente ser adaptada para o hidrogênio quando as reservas de gás se exaurirem.À medida que os efeitos da mudança climática se tornem mais evidentes, o desejo público de evitar eventos climáticos extremos se intensificará. Quanto isto ocorrer, as pressões para elevar os impostos sobre o carbono e reduzir impostos sobre a renda poderão aumentar, proporcionando um forte incentivo econômico para a reestruturação energética.O novo século está apontando novos rumos para a economia energética mundial. O último século foi caracterizado pela globalização da energia, quando o petróleo surgiu como fonte principal de energia. Efetivamente, o mundo inteiro se tornou altamente dependente de uma região, o Oriente Médio, para uma parcela desproporcionalmente alta da sua energia. Hoje, quando o mundo se volta para a energia eólica, solar e geotérmica como fontes primárias e para o hidrogênio como combustível de uso final, a economia energética está se localizando, revertendo a tendência dos últimos cem anos.

* Lester Brown: Fundador do WWI-Worldwatch Institute e do EPI-Earth Policy Institute. Publicado pelo NEWSLETER WWI-UMA, http://www.wwiuma.org.br.