Energia e Globalização


Por Henrique Pavan

Vivemos um momento-chave no cenário político mundial: a globalização avança e deixa suas marcas em todos os cantos do globo – traz prosperidade e desenvolvimento em alguns casos, miséria e desagregação na maioria deles.

Sabemos que tecnologia avançada e capitalismo global são expressões que vivem estritamente ligadas uma a outra desde os alvores da Revolução Industrial no século XVIII. A partir de então, os efeitos contraditórios de tal sistema vêm influenciando, modificando, reconstruindo a sociedade mundial de forma abrupta, insípida e, na maioria dos casos, dolorosa.

Com efeito, a energia teve um papel importantíssimo na evolução das relações capitalistas de produção. A partir da energia a vapor – fonte revolucionária por excelência, pois viabilizou um aumento na produção têxtil inglesa setecentista, bem como aprimorou os meios de transporte e comunicação -, passando pela energia elétrica, nuclear e petróleo, o planeta Terra presenciou um progresso inaudito, dotado de inovações surpreendentes, ao mesmo tempo em que sofreu as conseqüências da poluição ambiental e da ocupação desordenada de regiões até então preservadas – ocupações que, na maioria dos casos, foram conseqüência da crescente urbanização e concentração de renda nos grandes centros e da proletarização em massa de grande contingentes humanos atirados em míseras condições sociais.

No século XX, o agravamento das condições ambientais se tornou patente a todos os cidadãos do mundo: descobriu-se que a energia nuclear poderia contaminar de forma cruel as regiões contíguas às grandes usinas; que a radiação era tão nociva aos seres humanos que prejudicou gerações de descendentes de Hiroshima-Nagazaki e devastou famílias inteiras na região de Chernobyl. Isso só para citar os casos mais conhecidos. Felizmente, apesar dos efeitos catastróficos que uma falha em uma usina nuclear pode causar, as probabilidades disso acontecer são exíguas, pois o controle sobre tais mecanismos vem se tornando mais eficiente.

O contrário acontece com o petróleo.Conhecido desde os primórdios da civilização, o petróleo só passou a ser utilizado comercialmente no século 18. A perfuração de poços, no entanto, foi iniciada nos Estados Unidos em 1859, por Edwin Drake. A importância do recurso foi definitivamente demonstrada na Primeira Guerra Mundial: a mecanização dos transportes que equipavam as tropas fez com que o mundo reconhecesse que estava vivendo o 'século do petróleo'. Começava a corrida pelo ouro negro. Hoje, os 72 milhões de barris produzidos diariamente correspondem a 40,6% da produção energética mundial.

O advento da globalização trouxe, ao contrário do que seus apologistas pregam, uma instabilidade geral nas economias dos países em desenvolvimento. O petróleo – produto tão abundante em alguns desses países – figura na propaganda das grandes instituições e corporações globais como um fator gerador de altos lucros e, conseqüentemente, de desenvolvimento. No entanto, o que vemos é que o comércio mundial do “ouro negro” está nas mãos de um pequeno grupo de empresas monopolistas e que, nos países em que tal bem é produzido, apenas uma classe privilegiada desfruta dos lucros desse comércio.

Ademais, os prejuízos ambientais gerados pe0la exploração desenfreada de petróleo são terríveis. Vemos constantemente catástrofes como a acontecida recentemente no litoral norte da Espanha, onde um grande vazamento provocou danos irreversíveis ao ecossistema da região, além de causar perdas sofríveis para as cidades próximas.

A opinião pública mundial já atingiu um grau de maturidade que permite pressionar para a diminuição do comércio petrolífero e promover campanhas globais que incentivem a utilização de fontes energéticas renováveis não-poluentes. No entanto, alguns dos grandes agentes da globalização são empresas como a Exxon, Shell e Texaco que adquirem somas imensas de dinheiro através da exploração dos poços de petróleo. Certamente, não querem deixar de obter seus privilégios e lutarão intensamente contra a sociedade civil mundial. É uma luta que deve guiar o curso do século XXI.