Washington Novaes
Por que seguir com algo tão polêmico, se temos no momento sobra de 10 mil MW?
No mesmo dia em que o presidente da República tocava tambor no Palácio do Planalto, numa cerimônia pelo Dia do Meio Ambiente, do lado de fora ativistas do Greenpeace promoviam manifestação para ''alertar o presidente da República sobre os perigos da energia nuclear e pedir que desista do projeto de construção da usina nuclear Angra 3''.
Na Internet circulava, pedindo adesões, carta em que numerosas ONGs ambientalistas e sociais recomendavam ao presidente que ''sepulte a desastrosa política energética que vinha sendo adotada e abandone definitivamente o programa nuclear de produção de energia'', assim como a construção daquela usina, com custo próximo de US$ 2 bilhões.
Diz a carta que os equipamentos já comprados são ''ultrapassados'', uma tecnologia abandonada nos países desenvolvidos e que produzirá energia cara, onerando a sociedade. Em seu lugar, defende um programa de energias renováveis e produção descentralizada (em lugar de megaprojetos).
Nesse mesmo dia, como que para ressaltar os dramas e os altos riscos de fontes radiativas de energia, publicavam os jornais, em poucas linhas, que fora preso na Tailândia um homem com um pacote contrabandeado de 30 quilos de césio 137 (se alguém não se lembra, uns poucos gramas desse elemento, espalhados em Goiânia ao arrebentar-se a marretadas uma bomba de um instituto de radiologia, mataram quatro pessoas e contaminaram ou irradiaram centenas, talvez milhares de pessoas, que ainda hoje sofrem com cânceres, feridas que não se fecham e outros graves problemas - sem falar nos custos de manutenção de um depósito de rejeitos que assim terá de ser mantido durante séculos).
Ao que parece, a decisão sobre Angra 3 angustia o governo. Já na campanha eleitoral, dizem as ONGs, o candidato do PT não respondeu, no questionário que lhe foi enviado, a pergunta sobre esse tema.
Naquele momento, o Conselho Nacional de Política Energética determinara à Eletrobrás que iniciasse os trabalhos preparatórios para a construção da usina.
Isso incluía negociar financiamentos, começar a construção civil e até negociar a venda de energia nessa unidade de 1,35 mil MW de potência (Estado, 9/10/2002).
Uma usina que o atual secretário de Meio Ambiente do Estado de SP, professor José Goldemberg, dissera (Estado, 13/5/2001) que não ajudaria a resolver a ''crise energética'' então vivida, pois só estaria pronta em 2008. A ''crise'', entendia ele, era apenas pretexto.
De lá para cá, houve um pedido de desligamento de Angra 1 e 2, pelo prefeito de Angra dos Reis (atitude aprovada pelos professores Maurício Tomalsquin e Luiz Pinguelli Rosa, ambos então na Coppe), por causa do deslizamento de encostas na região, e uma manifestação do atual presidente da Eletrobrás, em favor de uma solução para o problema de tarifas de Angra 1 e 2 - sem ela não seria possível trocar os geradores de vapor de Angra 1, essenciais para o bom funcionamento de seu reator.
O prefeito tentou também embargar a construção do depósito provisório de rejeitos radiativos de Angra 1 e 2, já licenciada pelo Ibama e autorizada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear.
E aí se chega - depois do problema da segurança na operação - ao centro da segunda questão crucial: a falta de solução para a destinação definitiva de rejeitos de usinas nucleares, que continuarão ativos e perigosos durante milênios.
Por não haver solução, a Alemanha decidiu desativar nos próximos 17 anos suas 20 usinas nucleares em operação e substituí-las por fontes de energia renovável, que deverão atender a 50% das necessidades do país até 2050.
Hoje, o lixo nuclear está sendo depositado no fundo de minas de ferro desativadas.
Quando o autor destas linhas, em 2000, perguntou a um alto funcionário do Ministério do Meio Ambiente e da Segurança Nuclear se considerava segura essa solução, ele respondeu: ''Como funcionário do governo alemão, acho uma solução segura.'' E completou com uma gargalhada.
Também a Bélgica aprovou este ano a desativação progressiva de suas sete usinas, que respondem por 57% da energia que o país consome.
O Japão teve de desativar dez usinas próximas de Tóquio, por causa de rachaduras nos reatores, ocultadas em relatórios de inspeção falsificados - e tenta agora reativá-las, temendo crise no abastecimento de Tóquio.
Mas a Inglaterra pretende expandir seu programa de usinas nucleares, assim como a Rússia, que pretende construir mais 15 usinas (embora continuem abertas as chagas do desastre com um dos reatores de Chernobyl - lagos repletos de lixo nuclear, as mais altas taxas de câncer do país, na região).
E embora continue sem solução sua frota desativada de submarinos nucleares.
Nem os EUA conseguiram resolver o problema do lixo nuclear de suas usinas, que continua em depósitos provisórios. A solução, dizem especialistas (Scientific America, junho de 2002), poderá custar US$ 300 bilhões.
O depósito projetado para Yucca Mountain, no Deserto de Nevada, já consumiu alguns bilhões de dólares, mas continua no centro de intensa polêmica científica.
Os que o condenam dizem muitas coisas: que foi escolhido um lugar e foram feitas regras adequadas a ele, quando deveria ser o contrário; que já houve ali um terremoto, há poucos anos; que as avaliações são precárias; que ele está numa região de vulcões que podem reativar-se; que a radioatividade pode contaminar lençóis subterrâneos de água.
Há pouco, o governo norte-americano liberou as informações sobre o resultado de 828 testes com artefatos nucleares realizados bem perto de Yucca Mountain, também no Deserto de Nevada.
A radiação corresponde a metade da liberada pela explosão de Chernobyl e ainda estará presente daqui a 500 anos.
De volta ao Brasil, fica a pergunta: por que seguir com algo tão polêmico, se temos no momento sobra de 10 mil MW e muito mais poderíamos ter, se o retorno ao consumo desperdiçador não estivesse sendo estimulado - em lugar de um programa de conservação de energia?
O racionamento provou que uma economia de mais de 20% é possível, sem grande sacrifício. Um programa de conservação permitiria ainda liberar investimentos para outras áreas, tão carentes. Mais um dilema na mesa do presidente.
* Washington Novaes: Jornalista especializado em Meio Ambiente. Artigo publicado
no jornal `O Estado de São Paulo`, SP, 20.06.03