Aspectos Etratégicos de Uma Política Nuclear Para o Brasil
Joaquim Francisco de Carvalho
Angra III não usará combustíveis importados, daí sua a importância estratégica.
Comecemos pela geração eletronuclear. Com o atraso do programa hidroelétrico, a decisão sobre Angra III deve repousar prioritariamente sobre considerações de caráter estratégico, pois não é prudente que grande parte da economia brasileira fique ao sabor do gás natural importado, cuja regularidade de fornecimento e os custos dependem da estabilidade política da Bolívia e das decisões dos grupos que detêm o poder sobre o gás importado daquele país.
Angra III não usará combustíveis importados, daí sua a importância estratégica. É claro que há outros aspectos também importantes, a serem considerados. Entre estes está o estudo, que deve ser feito, para determinar-se qual será a contribuição da usina para a confiabilidade elétrica do sistema interligado da Região Sudeste e se essa confiabilidade não poderia ser aumentada com o reforço do sistema de transmissão das Regiões Sul e Sudeste.
Há ainda a questão do impacto dos custos de produção de Angra III, sobre a composição da tarifa média de suprimento. Sobre isso, os dados oficiais mostram que a eletricidade gerada nas hidroelétricas de Furnas é mais barata do que a de Angra I e Angra II, mas é possível compor-se um ''mix'' tarifário para compensar a diferença entre os custos hidroelétricos e nucleares, como acontecia quando aquelas usinas pertenciam a Furnas e eram subsidiadas pela diferença entre os baixos custos das velhas hidroelétricas, e os elevados custos das nucleares.
Daí depreende-se, aliás, que a transferência das usinas nucleares, de Furnas para a Eletronuclear, dificultou a construção de Angra III. Aí está, portanto, mais um prejuízo ao Brasil, provocado pela desestruturação do sistema elétrico, com vistas à sua privatização.
No tocante aos impactos ambientais, todos sabem que, em operação rotineira, as usinas nucleares praticamente não agridem o meio ambiente.
No entanto as futuras gerações herdam o problema dos rejeitos de alta atividade, que atualmente vão sendo depositados em condições que não se pode considerar absolutamente seguras. Assim, os planos para a retomada do projeto Angra III devem ser acompanhados de um plano para a evacuação das populações residentes nas áreas sujeitas a elevadas doses de radiação, em caso de vazamento de radionuclídeos de alta atividade.
Deve-se, por outro lado, estudar uma solução técnica e economicamente realizável (com a respectiva alocação de recursos) para o problema da disposição final dos rejeitos de alta atividade e longa meia-vida, provenientes dos combustíveis irradiados na operação da usina.
Vejamos agora os programas de pesquisa e aplicação de radioisótopos nas áreas biomédica, industrial e agrícola. Infelizmente esses programas ficaram em segundo plano diante do programa eletronuclear, que absorveu boa parte dos escassos recursos que deveriam ter ido, por exemplo, para o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Piracicaba) e para o Instituto de Energia Nuclear, do RJ ou, ainda, para o projeto conjunto da Marinha com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares de SP.
Este projeto era especialmente interessante sob o aspecto estratégico. Além do reator de propulsão naval, muito importante para o Brasil, com seus 8 mil km de costa, o projeto contemplava o desenvolvimento da principal etapa do ciclo do combustível nuclear, o enriquecimento do urânio, que era o ponto fraco da cooperação nuclear com a Alemanha.
A instalação de enriquecimento por ultracentrifugação, que foi construída e testada com êxito, comprova o sucesso da cooperação da Marinha com o Ipen.
Note-se que o reator de propulsão naval pode ser adaptado e ampliado, para gerar eletricidade em escala comercial, em módulos na faixa de 20 a 40 MW de potência elétrica, para atender a cidades de médio porte e sistemas isolados, que não podem ser alcançados em condições econômicas pelo sistema elétrico interligado.
Cabe, por fim, assinalar que, em meu entender, o desenvolvimento da energia nuclear no Brasil poderia receber um grande impulso, se o projeto da Eletronuclear fosse integrado ao da Marinha/Ipen, visando ao aproveitamento das evidentes sinergias que há entre eles, seja no tocante à otimização dos recursos orçamentários, seja no que diz respeito ao melhor aproveitamento dos profissionais altamente qualificados que trabalham na Eletronuclear, na Marinha e no Ipen.
* Joaquim Francisco de Carvalho: Joaquim Francisco de Carvalho, mestre em engenharia nuclear, foi diretor da Nuclen (atual Eletronuclear). Artigo publicado em 06.05.2003 JC e-mail 2271 (MCT).