USO RACIONAL DE ENERGIA

UMA QUESTÃO DE MUDANÇA DE MENTALIDADE

Por Maria Cecília S. Figueira

Jantar a luz de velas. Romântico. Comida a lenha. Deliciosa. Uma caminhada ao clarão da lua.Saudável.Emoções de satisfação e bem estar. Mas que tal jantar apenas a luz de velas todos os dias? Ou voltar a cozinhar num fogão a lenha pelo resto da vida? Ou a lua como a única a iluminar o caminho de volta a casa?

A evolução de máquinas e equipamentos tem proporcionado ao ser humano tantas facilidades que às vezes esquecemos de dar valor à energia utilizada na produção de quase tudo que nos rodeia ou no seu uso. Até o nosso próprio corpo precisa de energia para se desenvolver e se locomover. Mas o pior de tudo é que não percebemos o mal uso que fazemos da energia nas mais diversas formas: iluminação, refrigeração, geração de calor, som, cozinhar alimentos, transformar materiais,... Por exemplo, você pagaria um pouco mais por uma geladeira que consumisse menos energia, apesar de não ter aqueles acessórios bonitos da geladeira menos eficiente? A verdade é que raramente conferimos a potência consumida pelos aparelhos que compramos. Isso vale não só para o uso da energia em residências, mas também em alguns setores comerc iais e industriais, onde nem sempre é possível se adquirir crédito para compra de equipamentos que consomem relativamente menos energia.

No ano de 2001, a maioria dos brasileiros experimentaram medidas de racionamento da energia elétrica. Seja no pagamento de taxas mais caras por não atingir as quotas propostas pelo governo, ou pelas medidas implantadas pelos usuários para a redução do consumo, quem sabe pela primeira vez pudemos observar a importância da energia elétrica no nosso bem-estar. Mesmo assim, pudemos contar ainda com outros tipos de energia que, na sua falta, comprometeria todas as nossas atividades. Tínhamos ainda gás de cozinha, a energia química de nossas pilhas e baterias, o combustível de nosso transporte, a energia contida nos alimentos. Alguns brasileiros, contudo, ainda não tem acesso nem sequer às formas de energias mais básicas para a sua sobrevivência.

Muito se falou sobre os motivos da crise energética no Brasil, que aconteceu em 2001. Antes de mencioná-los, devemos ter em mente que quase 90% da eletricidade gerada no Brasil é de origem hidroelétrica. Assim, a geração de eletricidade está intimamente ligada ao regime de chuvas e a capacidade de se ter reserva de água. Durante os anos 90, o consumo tem crescido a uma taxa da ordem de 5% ao ano. Contudo os investimentos no setor tem sido reduzido em cerca de 50% na última década.

Outro problema sério é que não existe integração das diversas usinas. Se tivéssemos linhas de transmissão de alta capacidade interligando hidroelétricas de todas as regiões do país, as medidas do racionamento de energia elétrica não teriam sido tão drásticas. As regiões Norte e Sul puderam operar em seu ritmo normal, enquanto as usinas das demais regiões estavam com baixo nível de abastecimento.

Contudo, onde está a nossa parte da responsabilidade?


É tanta a energia consumida ao nosso redor que até parece inesgotável. No entanto, direta ou indiretamente, dependemos de fontes provenientes de recursos naturais não renováveis como o petróleo e seus derivados, o gás natural e o carvão mineral. Não existe consenso de quando as reservas de petróleo se esgotarão. Contudo, os estudiosos parecem concordar que em uma ou duas décadas será atingido o máximo da produção de petróleo e, a partir de então começará a fase de declínio. Nessa fase, provavelmente, muitas máquinas deverão ser adaptadas ou substituídas para uso de novos fluídos ou haverá necessidade de ser desenvolvidos outros processos industriais para a manufatura de quase todo o arsenal de utensílios que nos rodeiam. Caso venha acontecer de uma maneira abrupta, os custos de produção fata lmente aumentarão nessa fase de transição até que novas tecnologias se estabeleçam no parque industrial.

Curiosamente, à medida que ouvimos falar de que as fontes não renováveis estão se esgotando no mundo todo, o consumo de energia não pára de crescer. Muitos países têm tentado investir na pesquisa de fontes de energia renováveis. Contudo, a contribuição dessas novas fontes ainda é muito pequena no nosso planeta.

O Desperdício


E o que se pode fazer para se aproveitar melhor a energia? Em primeiro lugar, evitar o desperdício. De nada valerão as demais medidas, sem uma mudança de atitude com relação ao não desperdício do que temos. E não apenas com relação à energia, mas a todos os recursos naturais, dos quais depende a vida humana.

O ato tão simples de apagar uma lâmpada no seu local de trabalho ao voltar para casa mostra uma maturidade frente à preservação do nosso meio ambiente. Mesmo que seja só você, pois consciência se cria não com discursos, mas dando o exemplo. É visível a cultura de desperdício no nosso país em todos os segmentos. E mais chocante ainda é o fato de convivermos entre o contraste do desperdício e a miséria extrema em algumas regiões do Brasil. Desde esse ponto de vista, desperdício é também uma agressão aos que não gozam desses mesmos benefícios. E são muitos em nosso país.

Aproveitamos integralmente todos os alimentos? Jogamos fora as frutas que, por falta de planejamento, apodreceram sem ser tocadas? Foi gasto energia para produzi-las, para armazená-las e para mantê-las frescas no nosso lar. E mesmo antes de chegar às nossas mesas, muitas já foram descartadas. E como se não fosse suficiente o desperdício até a chegar ao lixo, me sequer damos um destino mais nobre ao que já foi perdido. Até hoje, não temos praticamente nenhum programa de seleção, coleta e reciclagem do lixo orgânico residencial. Como no caso de outros materiais que podem ser reciclados, será necessária mais energia para transporte e para todas as fases do processo de reciclagem.

Praticamente não questionamos o que jogamos no lixo e, por isso, já estamos enfrentando problemas devido ao volume gerado que não pára de crescer. A doação de produtos industrializados que tenham ainda condições de uso por outras pessoas é uma maneira de prolongar a vida útil dos mesmos, valorizando a energia utilizada em todas as etapas da produção até a comercialização do produto.

Se analisarmos nosso lixo e profundamente tudo o que nos dá bem estar ao nosso redor, vamos observar que não temos dado valor a muitas coisas.

Eficiência


Além do desperdício, deveríamos preocupar-nos com a eficiência de todos os equipamentos que utilizamos. Cada motor, ferramenta, equipamento contém entre suas principais características, a potência consumida. Muitas vezes nos deixamos levar pelo preço final do produto que compramos sem considerar quanto teremos que investir no seu funcionamento ou manutenção, dentro de sua vida útil.

Entre produtos com preços parecidos, temos a tendência de comprar o maior, desde que caiba em nossa residência, sem nos perguntarmos se estaremos ou não usufruindo ao máximo de todas as facilidades para o qual foram projetados. O não aproveitamento da maioria dos recursos de um equipamento ou de sua capacidade máxima de funcionamento, no dia a dia, também é outra face do desperdício. Alguns equipamentos possuem diferentes programações, de forma a incluir opções adaptadas ao uso. Um exemplo é o da maioria das máquinas de lavar, que oferecem alternativas para o volume e tipo de roupas a ser utilizado.

Uma tarefa que, em geral, é feita sem muito cuidado ou até é desprezada, é a leitura dos manuais ou guias de usuário. Cada máquina é projetada para uma ou diversas situações de operação e o consumo de potência indicado no produto só é válido no caso de serem seguidas as especificações de uso que constam no manual. Até disso, o equipamento pode ter sua vida útil reduzida.

Uma maneira muito mais madura nessa questão é a exigência seja aos fabricantes ou autoridades do aumento da eficiência de motores, em geral. Muitos equipamentos vendidos no Brasil consomem mais eletricidade quando comparados com similares no exterior. Em alguns países existem leis e normas que terminam o valor mínimo de eficiência de motores e os que fogem desse padrão são penalizados com multas severas.

Como vimos, o uso racional de energia depende principalmente da consciência de que todo o bem-estar conquistado pelo homem não tem um vida infinita. Nosso planeta sofre as conseqüências de um uso desenfreado de seus recursos, por não pensar nas próximas gerações. E, se não mudarmos de atitude, poderemos por em risco nosso próprio conforto. Ainda é tempo de mudar...