| Saída do Beco Energético | |||||||||||||
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O leitor é capaz de dizer
qual é mais barato um litro de gasolina ou de álcool,
um MWh gerado em usina hidrelétrica, termoelétrica, nuclear
ou em usina eólica? A energia do hidrogênio ou do óleo
de dendê? Convém pensar bastante antes de responder. O tema
não é simples como pode parecer e está mergulhado
em imensas controvérsias. Deve ser contabilizado, por exemplo,
o custo militar de manutenção dos poços de petróleo
no Oriente Médio, calculado em US$ 100 por MWh (se usado para gerar
energia elétrica)? E os custos ambientais, de US$ 1 mil por MWh?
Na energia hidrelétrica, cotada a R$ 30 por MWh, devem ser computados
os custos socioambientais e da transmissão a longa distância,
que a energia eólica (R$ 200 por MWh) não costuma ter, injetada
diretamente em redes locais? E a energia nuclear (R$ 120 por MWh), em
quanto ficará se adicionados os custos de disposição
do lixo atômico (problema sem solução; o lixo de Angra
1 e 2 continua estocado nas próprias usinas, por falta de destinação
adequada)? São muitas perguntas e hipóteses.
Washington Novaes A controvérsia está cada vez mais acesa, em função de alguns fatos recentes: . está-se realizando esta semana em Bonn, Alemanha, a Conferência Mundial sobre Energia Renovável, da qual o Brasil participa; . há poucas semanas, ao regulamentar o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), o governo federal definiu quanto pagará pelo MWh de cada modalidade; . desde a visita presidencial à China, reativou-se a polêmica: o Brasil vai construir a usina nuclear Angra 3? E vai mesmo importar carvão da China para implantar uma termoelétrica em Cachoeira do Sul (RS), no momento em que tem sobra de energia, dezenas de termoelétricas desativadas e a energia nelas gerada é muito poluente? O Brasil leva uma proposta à conferência de Bonn, formulada pelo secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, professor José Goldemberg: que o Banco Mundial e outras instituições financiadoras transfiram para energias renováveis 10% dos recursos que hoje destinam a projetos com energia derivados do petróleo, gás e carvão. Não será fácil aprová-la, dada a oposição de países que dependem muito de energias fósseis. Principalmente os dez países recentemente admitidos na União Européia. Mas a Europa está à frente dos demais continentes em matéria de energias renováveis. Embora não vá atingir a meta que a União Européia fixara de ter 22% de sua energia elétrica obtida em fontes renováveis até 2010 e 12% de toda a energia que consome , ainda assim vai chegar a 18 ou 19%. Quatro países cumprirão o objetivo inicial: Alemanha, Dinamarca, Espanha e Finlândia. Com a entrada dos novos países na União Européia, será mais difícil. E por isso o objetivo será baixado para 20% em 2020. De qualquer forma, os 15 países que até há pouco formavam a Comunidade terão em 2010 o dobro da energia eólica que haviam projetado. Graças principalmente à Dinamarca (16% de toda a energia que consome) e Alemanha. A Europa já tem outra decisão tomada: concentrar esforços em energia da biomassa. Terreno para o qual recente relatório do WWF e Associação da Indústria Européia da Biomassa chamam a atenção: esse tipo de energia, que hoje responde por apenas 1% do consumo industrial no mundo, poderá chegar a 15% em 2020. Entre vários motivos, porque as energias da biomassa, principalmente da cana-de-açúcar, da palha e da queima de gás de aterros e de lixo, pode reduzir as emissões de dióxido de carbono num total equivalente às emissões anuais de Itália e Canadá, juntos. E quando se fala em biomassa, entra-se em terreno privilegiado para o Brasil, País que poderia construir toda a sua matriz energética a partir daí como tem escrito o pai do Proálcool, J. Bautista Vidal (O Poder dos Trópicos). E essa seria a melhor, mais limpa e mais duradoura forma de energia, provida pelo Sol. Mas continuamos tímidos nesse campo. O Proinfa, recém-regulamentado, prevê a implantação de 3,3 mil MW a partir dos ventos, da biomassa e das pequenas centrais hidrelétricas se as empresas privadas se dispuserem a investir R$ 8,6 bilhões; a energia terá sua compra garantida pelo governo federal, a preços que variam de R$ 93,77 o MWh para o bagaço de cana, passando por R$ 101,35 da madeira, R$ 103,20 da casca de arroz, R$ 117,02 das pequenas centrais hidrelétricas, R$ 169,08 do gás de aterros e R$ 180,18 das usinas eólicas. De qualquer forma 3,3 mil MW quase dobrarão a participação dessas energias renováveis na matriz brasileira, que está em 2,9% e deve chegar em 2006 a 5,9%. Elas também evitarão a emissão de 2,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano. É um campo tão promissor que grandes empresas, como a Chesf e a Eletrosul, já se estão associando-se em projetos de energia eólica. Bautista Vidal costuma dizer que alternativa não é a energia da biomassa, é a do petróleo, que se esgotará em poucas décadas, é cara e polui insuportavelmente. A energia da biomassa, provida pelo sol, durará enquanto este aquecer a Terra. Polui muito menos, em várias modalidades, ou nada (eólica, solar)). E pode custar menos, se todas as contas forem feitas corretamente. E essa área ainda podem vir as maiores novidades. Um professor de Bioquímica da Universidade de Lund, Suécia, Stenbjorn Styring, anunciou num dos últimos números da revista New Scientist que já está próximo o domínio dos formatos que permitirão ao ser humano retirar do sol como as plantas conseguem com a fotossíntese a energia de que necessita. Outros cientistas do Imperial College, de Londres, confirmam. Se de fato isso acontecer, será um passo decisivo para sairmos do beco em que nos metemos com a matriz energética que está gerando mudanças climáticas. Washington Novaes é jornalista |
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